“O complicado não é ter três filhos. É ter três pessoas.” Anónimo
Parte 76 – De como é mais fácil educar um filho do que um punhado (ou só dois) deles
Quando o Tigre era muito pequenino costumávamos olhar para as crianças da mesa do lado no restaurante e dizer que o nosso nunca iria comer com as mãos depois de ter idade suficiente para agarrar num garfo, que não iria bater com a cabeça no chão como forma de negação nem trepar para cima das mesas para se auto-exprimir. Quando o Tigre era pequenino ficava bem sentado durante a maior parte da refeição, não fazia birras em público e, se queria correr e trepar, tinha o jardim todo por conta dele. Quando o Tigre era pequenino era muito bem comportado. Até fazer 22 meses e nascer a Foca.
A Foca era bem comportada também, quando olhava para o Tigre e copiava o que ele fazia de bem. A Foca era muito mal comportada quando estávamos a dar atenção ao Tigre. Aí o Tigre reparava no mau comportamento da Foca e imitava-a. Os dois palhacinhos alegres lá foram crescendo, umas vezes bem, outras mal comportados. Até que o primeiro entrou na escola e começou a trazer novidades behaviouristas. Em breve a Foca, animal social que é, recriou as novidades à sua maneira e todo um nóvel ciclo de imbecilidades se desenrolou perante nós, pais mortificados.
Entra a Foca na escola, já com o Saguim na fotografia. A matemática é imbatível e dois a dividir por três deixa sempre resto e nenhum descanso. O ciclo continua, sempre com mais e mais achegas. Todos contribuem. Em todo o lado bebem influências. Uns são intérpretes apaixonados, outros, dependendo sempre do papel, mais atrapalhados ou menos talentosos. O palco, contudo, é em geral a nossa casa.
Por isso passam, quando vamos a casa de alguém civilizado, como diziam os meus pais quando nos portávamos ignobilmente, por miúdos bem educados. Na maior parte das vezes – e quanto pior conhecem os anfitriãos – comem recatadamente com os talheres, pedem se faz favor e dizem obrigado, perguntam se se podem levantar da mesa (perguntam se se podem levantar da mesa! caramba, alguma coisa deu certo!) e tal e coisa. Não é para me gabar mas várias vezes fomos elogiados por tudo isso.
Quando vemos um miúdo sem irmãos a portar-se bem e ouvimos os pais elogiarem o seu único rebento, não podemos deixar de rir velhacamente para dentro. Dêem-lhe um irmão, ponham-no na escola, larguem-lhe as rédeas – é fácil segurar as rédeas quando é só um -, deixem a coisa fluir. Em breve verão o lado negro da socialização. Tem muita força. Nós sabemos. Também passámos por isso.
O que custa, uma vez adquirida a consciência de que não há miúdos bem ou mal comportados de per se, mas miúdos expostos a mais ou menos influências, é conter essa má criação, e contê-la pelo menos dentro das nossas quatro paredes. Gerir o conflito domesticamente e não transbordar para a praça pública. Esse é que tem sido o desafio.
Se andássemos todos a “levantar asas” ao cortar o bife no refeitório da empresa, a interromper sistematicamente os mais velhos quando falam e a mostrar o rabo no supermercado seríamos considerados associais. Algures a meio da infância ou, o mais tardar, na puberdade, somos por fim, e por mais irmãos e “escola” que tenhamos, domesticados. Podemos andar por aí, à solta, sem incomodar ninguém. Ou seja, pelo menos sabemos manter a fachada. Para viver em sociedade, às vezes, bastaria só isso.
Mas é complicado, lá isso é.