Com tem acontecido desde que comecei a ler as suas sentenças, não podia estar mais de acordo com o meu novo guru.
Aqui por casa praticamos uma forma talvez ainda larvar deste tipo de abordagem aos bichos. Confesso que mais ele do que eu, que tenho, nesse aspecto, algumas ansiedades e constantes dúvidas e incertezas. Dou o meu melhor para as camuflar, pelo menos dos bichos propriamente ditos, mas que as tenho, tenho.
Mas quando o novo guru fala nesta história da chaufferização dos pais para que os miúdos não percam o torneio de futebol ou de berlindes do clube altamente profissional em que estão inscritos desde os três anos, não pude deixar de pensar no que vi há umas semanas atrás num grande colégio de Lisboa. Equipas, vestidas dos pés à cabeça com as cores de clubes variados, de miúdos de sete anos em diante que todos os sábados jogam futebol pelo distrito de Lisboa fora transportando atrás de si pais e mães e irmãos babados. Todos os sábados de manhã. E se calhar à tarde. E se calhar, de vez em quando, ao domingo.
Os bichos fazem natação. Duas vezes por semana, desde os três anos. Uma vez por semana, dos seis meses até aos três anos. Porque só se aprende a nadar de forma segura e consistente tendo aulas regulares. Porque saber nadar, para além de ser um exercício físico completo e equilibrado, treina a respiração e treina a resistência. E porque, acima de tudo, salva vidas.
Mas até aos dez anos será a única actividade desportiva organizada que lhes permitiremos.
Não queremos ser motoristas. Queremos fazer coisas em família ao fim-de-semana. E queremos estar calmamente a conversar, ao sol ou à sombra, ou ler o jornal, simplesmente, enquanto eles andam por aí. Eles querem subir às árvores, andar de bicicleta, de patins, de trotinete, de skate e saltar à corda. Querem jogar à manteiga derretida, à barra do lenço, aos quatro cantinhos, ao mata, à bola, ao basquete do caixote do lixo. Querem encher e atirar balões de água. Querem correr muito e saltar as cercas. Querem brincar aos polícias e ladrões e aos meninos perdidos.
Não querem que lhes digam como é que têm de correr, de saltar, de cair, de dar chutos. Felizmente, na escola ainda não se ensina como brincar aos meninos perdidos.