Obra da Mãe

I don’t do any thing. Not one single thing. I used to bite my nails but I don’t even do that anymore.

Maio 5, 2008

Arquivado em: Uncategorized — obradamae @ 1:13 am

Não podia estar mais de acordo.

Ainda não tenho nenhum filho adolescente, nem sequer a caminho disso (uff!), mas tenho-os ainda do outro lado do espectro – miúdos com oito anos e menos. E olho para aqueles em que me incluo, a classe média deste país, e fico um bocado abananada.

Apesar da minha própria pressa (com o mais velho, é sempre com o mais velho, não é?), os meus filhos tiveram direito a muitos meses de mama, a muita mãe, a muito minimalismo nas rotinas (comer, dormir). Foi um luxo, bem sei, mas também uma evidência. Que nem por sombras é exclusiva a quem fica mãe a tempo inteiro. Conheço mulheres que trabalham muitas horas fora de casa e que amamentam filhos de mais de 12 meses, miúdos que andam em creches desde muito pequeninos mas que dormem ainda no quarto dos pais, mães e pais que consideram normal que um miúdo de três ou quatro anos os prefira como principal entretém do que a miúdos dessa mesma idade. Qualquer que seja a circunstância da vida em que se está, haverá sempre maneira de respeitar a alta dependência dos pais dos bebés e das crianças muito pequenas. A ausência consistente, deliberada ou não, de algumas dessas necessidades afectivas básicas parece provocar, na maior parte das vezes, auto-estímulos e ansiedades mais ou menos escondidas. E para muitos pais essas mini-neuroses acabam por parecer uma grande independência e auto-suficiência dos miúdos.

Faz-me tanta impressão essa suposta independência e auto-suficiência precoce como a inexistência de qualquer tipo de independência e auto-suficiência em miúdos com mais de 7, 8 ou 9 anos. A partir dos 10, então, a falta de autonomia e de liberdade de movimentos dos jovens começa a ser um bocado estranha. O mais engraçado é que a classe média, seja intelectual ou bancária, é nisto muito parecida.

Nas piscinas de Lisboa as criancinhas que já lêem ainda têm de ir para o balneário com o progenitor (há sempre um pedófilo em cada chuveiro, não é?) e, se forem fora das aulas, antes dos 12 não podem dar mergulhos sem uma mãe ou pai-pide também dentro de água. A agenda extra-curricular está preenchida desde o 1º ciclo com música, ballet, inglês, expressão dramática e ainda qualquer outra actividade, porque há sempre o sábado de manhã. A monitorização dos rebentos, mesmo dentro das  escolas, faz-se com os telemóveis, as aulas de substituição e, pretendem agora, a videovigilância. Os músculos que se querem rijos para o râguebi são amolecidos pela motorização para todo o lado no carro dos pais. Existe uma pressão para que tenham de ser excelentes em cada bocejo ou rabisco que emitem desde, pelo menos, o 5º ano de escolaridade. A culminar isto tudo falta o senso comum, o sentido de humor e a auto-crítica. O politicamente correcto infecta os pais e filhos da nossa classe média e não venham cá com tretas de que são de esquerda ou que são de direita, que só querem fazer dinheiro ou que são muito artistas. Pais assim há-os em todo o lado, aqui e fora daqui. 

No fundo, como diz o post linkado, actualmente espera-se que os bebés se desmamem (em todos os sentidos) o mais cedo possível. Mas os miúdos mais crescidos, quando deviam fazer uns quantos disparates, baldarem-se às aulas de vez em quando e andarem sem controleiros em cima, são (tele)aprisionados até o mais tarde possível.

Esta inversão da ordem natural das coisas é irritante, sufocante e, realmente, sociopatizante.

E agora, depois de ser longa e chata, consegui desabafar.

 

 

 

3 Responses to “”

  1. Elizabete Says:

    Olá

    Já há algum tempo que visito o seu blog, ao qual vim parar através de um outro blog qualquer.
    Gostei imenso de ler este post, não faz muito tempo tive um desabafo semelhante com a minha irmã, prestes a ter uma criança (eu tenho duas)…apesar de a irritação não ser com ela, o meu tom irritado foi crescendo, crescendo até parecer que lhe estava a dar uma lição de moral, o que não era, nem de longe, a intenção.
    Gostei de ler porque afinal, somewhere out there, há pessoas que pensam como nós :-) e de vez em quando faz bem à alma encontrá-las, neste caso lê-las!
    Bem haja
    Elizabete

  2. Isabel Says:

    tenho um filho pequeno e dois adolescentes e não me revejo em nenhuma das caricaturas. Cada idade tem os seus desafios mas não é fácil ser mãe/pai de adolescentes e dar e tirar liberdade na justa medida. Como fiz muitos disparates na adolescência e sobrevivi e sou uma adulta responsável não tenho muita ansiedade em relação aos disparates deles, mas o mundo hoje é muito mais complicado e por isso os pais tendem a ser mais superprotectores a preocuparem-se mais com o sucesso escolar (se há uns anos não havia quase desemprego de licenciados agora já não é assim), não os devemos julgar muito.


Leave a Reply