Pensei que, quase cinco meses depois, isto já nem funcionasse…
E vou escrever o maior post que alguma vez escrevi nos nove meses anteriores.
Esta nova vida de miúdos na escola, mãe a trabalhar em casa, é esquisita. Tive trabalho do final do Verão até meados de Novembro. O que começou em Janeiro acabará apenas no final de Abril. Depois, creio, só no final do próximo Verão. A pouco e pouco há um ritmo que se vai definindo e que me vai sabendo bem, para planear, planear, planear. (E de caminho ganhar dinheiro e poupar). Vou conseguindo encaixar as férias deles neste calendário, mas até Abril vai ficar muito apertado, com o Carnaval e a Páscoa pelo meio. Não sei como é que as famílias que praticam ensino doméstico conseguem gerir isto, ou seja, como é que uma mãe a praticamente 100% do tempo com os filhos consegue, também ela, realizar tarefas intelectuais… Do que vou conhecendo na net e fora dela (na verdade, pessoalmente, só conheço uma mãe que pratica ensino domésico e não é aqui) tiro duas conclusões: as mães não trabalham a troco de dinheiro; e/ou as mães partilham efectivamente parte do dia com os pais das crianças para, nesse tempo, trabalharem.
A história do ensino doméstico ataca-me ciclicamente. Desde que a minha amiga que o pratica me enviou um livro do John Holt e me anunciou que não tencionava mandar o filho para a escola, há uns bons seis anos, que brinco com a ideia. Ultimamente, pela razão que menos me parecia razoável, penso nela como uma solução.
As duas grandes e boas e válidas razões para praticar ensino doméstico pareceram-me, desde o início, resumir-se numa só: o tempo, ou a falta dele. Por motivos de satisfação pessoal e, portanto, meramente egoístas, agrada-me ter os meus filhos ao pé de mim (bom, posso pensar em 58.235.445 ocasiões nos últimos dias em que senti exactamente o contrário… por alguns minutos). Esta coisa de estarem a ser formatados das 9h30 às 17h 5 dias por semana entristece-me um pouco e deixa-me roída de saudades. Eles, por sua vez, ficam com pouco tempo para fazerem exactamente aquilo que lhes apetece e interessa e motiva e que, na opinião de tantos “autores” e de qualquer um de nós que esteja minimamente atento, é a chave para a aprendizagem.
As outras razões que muitas vezes são apresentadas para justificar a opção do ensino doméstico, pelo contrário, sempre me soaram, simpaticamente falando, “preguiçosas”. Se bem que saiba que se pode aprender a ler e a escrever sem esforço e por iniciativa pessoal, o domínio da gramática, da sintaxe e dessas coisas todas só vem com muito e muito e muito treino e, sejamos francos, imposição. Dá trabalho e não é imediatamente percebido como um incremento. Tirando raras excepções, qual é o miúdo que, de moto próprio, se dispõe a dominar, num estudo autónomo e livre, durante anos, essas subtilezas e obtusidades da língua? E a matemática, à excepção das 4 operações mais simples e da geometria mais básica, requer um nível de abstracção difícil de atingir sem uma rotina, um certo método, uma certa exclusividade.
Há uma opinião no meio do ensino doméstico que diz que se o miúdo quer, o miúdo aprende. E se não quer é porque não lhe interessa e se não lhe interessa é porque, de certa forma, nunca lhe fará falta. Este raciocínio, que pretende alargar as possibilidades, acaba por afunilá-las. O domínio e a prática mais ou menos aprofundados e diversificados, em 12 anos de escolaridade, de três ou quatro campos do saber (Matemática, Língua materna, História e Geografia, e Ciências) abre um leque de oportunidades muito maior. O facto de saírem da escola sem saberem nada (o que não é verdade) não tem necessariamente que ver com a instituição escola em si mas com currículos e práticas que andam ao sabor dos governos e das modas.
Claro que para quem não pratica o método unschooling – descolarizar, sem regras, sem currículos, sem manuais, seguindo apenas os interesses do miúdo – a questão é resolvida com o recurso aos mesmos métodos usados nas escolas. E dando de barato que nunca utilizaria o unschooling na sua forma mais pura, será que conseguiria, eu, ensinar aos meus filhos mais do que o básico da língua e da matemática? Eis a minha primeira grande barreira.
A segunda barreira, mais prosaicamente, é a suposta nocividade do convívio inter-pares, defendida por muita gente que escolhe o ensino doméstico. A divisão por idades e não por grupos de interesse, a separação de irmãos, o bullying e a competição mais rasteira reinarão nos recreios e salas de aula das escolas do mundo. Advogam os educadores domésticos, sobretudo lá fora, que a verdadeira vida social se passa no mundo real, das pessoas de todas as idades e feitios que têm de conviver a todo o instante com outras de todas as idades e feitios. Se bem que, até certa medida, tenham razão, não só as crianças que andam na escola não estão impermeáveis aos contactos extra-escolares como a vida real, ao contrário desta imaginação bucólica, não tem grande coisa de convívio ou de troca constante e profícua entre pessoas. Numa cidade, em especial, quem trabalha numa oficina de automóveis ou sentado a uma secretária ou na caixa de um supermercado pode ir conhecendo pessoas mas fá-lo sempre do ponto de vista de quem está ali para oferecer um serviço e o outro para o pagar. Não há tempo nem possibilidade de ser de outra forma. Para já não falar no limitado interesse que a generalidade dos adultos que estão a trabalhar e a ganhar o seu pão terá para a generalidade das crianças que querem fazer mais um lego, falar sobre triops durante três horas, andar de baloiço toda a tarde ou brincar com as barbies. Há funções que os adultos desempenham acompanhados por outros adultos, outras que as crianças precisam de desempenhar acompanhadas por outras crianças. Negar isto é negar um pouco a infância. Se a escola não é o mundo perfeito, pelo menos está cheia de crianças. E isso, para a generalidade das crianças, mesmo as mais introvertidas, é o mais importante.
Ora é aqui que, de repente, vim dar. É que eu, ao fim de seis anos de escola by proxy, estou a ficar farta das influências “sociais” que a minha filha traz para casa.
Ela tem quase sete anos. É gira, esperta, muito criativa, muito faladora, muito extrovertida, ligeiramente exibicionista, ligeiramente teatreira. A mistura ideal para ser “pressionada” socialmente. E em que é que consiste a pressão? Assim escrito até parece uma coisa quase do foro criminal. Não é, é inocente q.b. e vulgaríssima, nos dias de hoje. E eu, parva e moralista, fico com pele de galinha. Com o quê? Primeiro de tudo com as conversas infindáveis do não sei quantos que gosta da não sei quantos e vice versa. Depois com a descrição do que lhe faz o rapaz que se diz apaixonado por ela. Passando pelos nomes dos programas que os colegas vêem, pelos filmes de que dizem gostar – alguém me explica onde está o interesse do Mamma Mia para um miúdo ou miúda de sete anos incompletos? – pelas marcas de cereais/bolicaus/batatas fritas que trazem qual e qual autocolante/tazo/stak. O cúmulo foi recentemente atingido pela necessidade imperiosa de todos terem computador Magalhães, mesmo que nenhuma escola o use, mesmo que os pais, em casa, tenham computador e net e mesmo que os pais, por opção, não queiram que os miúdos tenham destas “ferramentas electrónicas” para “desenvolver capacidades”. Depois de explicado, foi fácil aceitar a nossa não adesão. Mas a cereja em cima do bolo ainda estava para vir com o “então mas porque é que os da minha turma não acreditam que o Magalhães é pior que os computadores normais?”. Claro que a culpa não é da escola mas de toda a sociedade actual, real, virtual, digital, anormal. A escola é mero reflexo e irrazoabilidade a minha seria se a tirasse da escola. Além do mais, este tipo de embate reforça o carácter blá blá blá. Penso eu, parva e moralista, e afinal são coisinhas de nada, mas que me irritam cada vez mais porque não é este mundo com as idades e as prioridades cada vez mais trocadas que quero para a minha filha, para os meus filhos.
E, bem vistas as coisas, também não é o mundo sem conflitos, à parte e “acolchoado” em que o ensino doméstico pode muitas vezes cair. É outra espécie de mundo virtual em que eu, sem mais ninguém à volta com quem o partilhar, sei que daria em maluca muito mais depressa. E não é propriamente isso que quero para os meus filhos.
gostei imenso de ler este texto! estou a reflectir para melhor comentar…
(enviei-te um mail, btw)
A pressão/formatação social é efectivamente muito intensa que geha a sufocar. Dá vontade de naufragar numa ilha e agir sem culpas, como única opção, como a melhpr opção.
Também não conseguia assumir essa escolha, nem sei se seria bom para nós todos.
Mas é bom pensar nisto.
a mim parece-me esse ensino doméstico de um grande egoísmo e insensatez de quem quer guardar os filhos só para si como se fossem propriedade sua. Não estou a falar do ensinar a matemática ou a escrita, muitos pais o conseguiriam fazer com eficácia, mas de manter os filhos dentro de uma bolha irrealista e privá-los do que eles mais gostam na escola, o contacto com os colegas e amigos. Tenho 3 filhos, 16, 14 e 4 e direi que a partir dos 3 anos (no limite) os amigos são (quase?) tão importantes como a família. Cabe aos pais dar-lhes bases (através do exemplo) para eles poderem fazer escolhas. Porque até que idade é que se pode proteger as crianças das “más influências”? Neste momento estou a passar um mau bocado com a minha filha de 14 anos e riscaria de boa vontade algumas pessoas do seu grupo, mas não posso nem devo faze-lo. Incentivar a individualidade de cada criança, o não faças só porque os outros fazem, parece-me optimo, mas nunca a subtrair ao grupo.
Isabel,
tens razão, a pulsão egoísta em certas pessoas que escolhem o ensino doméstico é muito forte. e tens razão também quando dizes que não devemos subtraí-los ao grupo – seria insensato e injusto e, realmente, os nossos pais já passaram pelo mesmo e a grande maioria deles soube resistir a essa tentação. mas certas coisas assustam-me e tendo a minha filha metade da idade da tua tremo de pensar que a missa ainda agora começou…
marta
Quanto ao Magalhães, sentia exactamente o mesmo. Não tive a coragem para dizer não. No entanto, o Magalhães agora que vive cá em casa passa um ínfima parte do tempo (1 hora por semana se tanto) na mão do petiz.
Nada interessante comparado com a horta, a escola, o parque, a família…, portanto!
Quanto ao homeschooling dizer que estas famílias são egoistas é simplificar a questão.
As escolas em Portugal, por exemplo, não dão resposta a questões relacionadas com a diversidade e a multiculturalidade.
O que fazem as famílias que estão cá temporariamente e que querem que os seus filhos continuem a falar/escrever na sua língua materna? ou as famílias que praticam outras religiões que não a religião católica, nos dias de festa de natal, carnaval, páscoa, namorados, reis…?
Ou para aqueles que comem comida kosher, vegan, vegetariana, …?
os meus filhos frequentam uma escola pública, mas vejo muita gente engolir bois todos os dias (incluindo eu)!
A Escola em Portugal é laica, mas parece que o país se esqueceu disso!
Quanto à pressão social, nunca fui tão feliz. Experimentem pôr os vossos filhos numa escola pública em que a maioria das famílias vive do rendimento mínimo. Não se ouve falar de Mama mia, nem de playstations,quanto muito um tazo e um bolycao para aqueles cujas mães compram o lanche no café da esquina. Para os outos leitinho branco dado pela escola.
E quanto às saudades, os meus filhos às 3.15 estão em casa.
Enfim!